QUEM SOU EU...


"Ninguém pode calar dentro em mim esta chama que não vai passar, é mais forte que eu e não quero dela me afastar....



Eu não posso explicar quando foi e nem quando ela veio, mas só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo em que creio..."(Maysa)



Com as outras dores fazem-se versos...com as que doem,grita-se! (Fernando Pessoa)













Quem "grita" como eu......

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!
Luar dando espetáculo na praia da Boa Viagem!"

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Eu sei,mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.E porque não tem vista,logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora,logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz.E à medida que se acostuma esquece o sol,esquece o ar,esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado.A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.A comer sanduíche porque não dá para almoçar.A sair do trabalho porque já é noite.A cochilar no ônibus porque está cansado.A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e "ler sobre crimes.E aceitando os crimes não acredita nas forças policiais."

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro,e ouvir no telefone:hoje não posso ir.A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar tudo o que se deseja e o de que necessita.E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.E a ganhar menos do que precisa.E a fazer fila para pagar.E a pagar mais do que as coisas valem.E a saber que cada vez pagará mais.E a procurar mais trabalho,para ganhar mais dinheiro,para ter com que pagar nas filas em que se compra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.A abrir revistas e ver anúncios.A ligar a televisão e assistir a comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.A ser instigado,conduzido,desnorteado,lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.À luz artificial de ligeiro tremor.Ao choque que os olhos levam na luz natural.À contaminação da água do mar.Às bactérias da água potável.À lenta morte dos rios.Se acostuma a não ouvir passarinho,a não ter galo de madrugada,a ter a hidrofobia dos cães,a não colher fruta no pé,a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais,para não sofrer.Em doses pequenas,tentando não perceber,vai afastando uma dor aqui,um ressentimento ali,uma revolta acolá.Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.Se praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.E se no fim de semana não há muito o que fazer,a gente vai dormir cedo,e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado.A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas,sangramentos,para esquivar-se de faca e pistola,para poupar o peito.A gente se acostuma para poupar a vida,que,aos poucos se gasta,e que,gasta de tanto acostumar,se perde em si mesma.

Marina Colasanti,postado por Sonia Regina,27/10/2008