QUEM SOU EU...


"Ninguém pode calar dentro em mim esta chama que não vai passar, é mais forte que eu e não quero dela me afastar....



Eu não posso explicar quando foi e nem quando ela veio, mas só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo em que creio..."(Maysa)



Com as outras dores fazem-se versos...com as que doem,grita-se! (Fernando Pessoa)













Quem "grita" como eu......

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sábado, 24 de abril de 2010

A COISA



Nada que tivesse acontecido de um dia para outro, nada que a tivesse apanhado de surpresa... Não... Foi chegando devagar, muito devagar, ano após ano, gota após gota, como aquelas que desgastam fantasticamente cavernas sólidas, milenares e traçam nelas seu desenhos caprichosos, indeléveis. As gotinhas são frágeis,quase invisíveis, mas que força de transformação possuem!!!

Foi assim que aconteceu...Dia a dia, instante a instante, as gotinhas do nada foram abalando sem pedir licença os alicerces em que se apoiava a construção da sua vida.

Por muito, muito tempo sequer se apercebeu e continuou a caminhar procurando convencer-se de que tudo era passageiro e que seu caminho, o que fora traçado para caminhar, logo, logo surgiria e tudo o mais ficaria para trás.

Com essa confiança, havia risos, havia festas e muitos momentos de alegria.

Mas, a coisa estava lá, sempre esteve: quieta, ciente de sua força paciente, ciente das metas que desejava atingir.

Primeiro foi o aprender a digerir traições: sujas,sem critérios nem razões...O respeito por seus sentimentos rolou pela poeira de aberrações que a faziam odiar ser mulher.

Matou a mulher e restaram os sonhos tolos e infantis que alimentavam seu imaginário e "morfinavam" sua dor e vergonha.

O tempo passando, o veneno ali matando e ela brincando de sorrir. Resolveu tentar ser boa, ser amiga para tentar comprar a simpatia dos que a rodeavam.

Por anos teve a sensação de haver conseguido. Defendia, sofregamente, pessoas que todos detestavam, e ela as compreendia, agradava e sorria. E...essas pessoas a ridicularizaram.

Os bens materiais, poucos, foram escapando por entre os seus dedos, outros lhe foram arrancados das mãos sutilmente ou por franquia e fraqueza de uma porta aberta por onde ela saiu para jamais voltar.

A coisa a tomou para si...

***

Sonia Regina/1994

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

BAILINHO DOS ANOS DOURADOS


Final da década de cinquenta. Bailinho de começo de noite, sempre realizado em casa de um parente de olhos atentos.

A sala em borborinho: risadinhas das moças, olhares cobiçosos e disfarçados dos rapazes. Alguém sempre procurando um par. Moças de um lado da sala, rapazes de outro. Elas, pacientes e ansiosas aguardando que eles a convidassem para dançar. É, naqueles anos, havia que se esperar o convite e só se dançava aos pares, até mesmo o rock, mais ligeiro e de passos acrobáticos havia que ser dançado por um casal.

Eles, fingindo segurança, morriam de medo que a mocinha lhes negasse a contradança, pois era, então a maior desfeita que poderiam receber em uma ocasião como essa, e o pior, frente a todos os amigos.

Ela o namorara durante alguns meses, namoro de mãos dadas e beijinhos furtados, no rosto, beijo,de verdade, ou seja boca na boca, sem essa de língua, só de assalto mesmo, no susto e porque negar, para o prazer de ambos. Estavam brigados, se fingiam amigos, se falavam, mas, na verdade os dois estavam sonhando com o dia em que "voltariam" ( era o termo usado para quem reatava um namoro ).

A música rodando na vitrola, tocava e ninguém a tirava para dançar nem ele convidava qualquer das meninas para girar no salão. Ele estava em uma poltrona defronte a ela que,do outro lado da sala, mantinha-se de pé. Recomeça mais uma canção, Only you, cantada pelo conjunto The Platters, que sempre dançavam juntos.

Ele faz um pequeno sinal com a mão e o coração dela quase explode de alegria, afinal, ele a convidara e ela iria para junto dele, sentiria seu perfume, Lancaster.Ele a enlaçaria suavemente a uma distância conveniente e ela sentiria o calor de suas mãos e abraçaria o mais perto que pudesse a sua nuca. Lá não chegaria, pois isso era proibido, tentava adivinhar como seria se pudesse abraçá-lo de verdade.

A mocinha era só sorrisos, sorrir para ela era fácil e o rapaz em sua beleza, para ela única, dançou a música inteira com um meio sorriso nos lábios mas com o carinho costumeiro que tinha ao dançar com ela. A música terminou e o moço agradeceu pela dança, como era costume e foi levá-la ao seu lugar ( isso devia ser feito, sempre, levar a dama ao lugar de onde a tirara para dançar).

Antes de afastar-se sussurou que precisava lhe dizer uma coisa e ela imaginou : - Vai me pedir para fazermos as pazes! Ele olhou nos olhos verdes da menina e declarou com olhos frios e debochados: - Quando lhe fiz aquele sinal eu estava lhe oferecendo o meu lugar para que se sentasse e não a convidando para dançar.

Nesse dia a linda mocinha chorou! Três dias depois haviam feito as pazes e namoraram por algum tempo, mas deste bailinho ela jamais esqueceu...e do rapaz também não!

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*Esse conto é absolutamente verídico...

Sonia Regina, 04 / 08 / 2008

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A VIDA É UM TEATRO



Pensava na teatralidade da vida. Quem dirigia? Quem escolhia o elenco? Quem determinava aquele que faria o papel principal? Quem executava os cenários? E os diálogos e enredos, quem os escrevia? O público, de onde vinha? Era convidado ou pagava pelo ingresso?

De um fato estava certa: seu papel neste espetáculo não se ajustava ao seu talento, assim como as pessoas sem talento obtinham papéis de destaque.
Pensava, pensava... Suas falas- sabia de tudo que trazia guardado dentro de si- eram aquém do que sentia e podia. Os aplausos nunca lhe eram dirigidos.

Quem sabe, não, com certeza não se permitira libertar a voz e o sentimento que borbulhavam dentro dela. Juntou-se, ou a juntaram à companhia e ao diretor errados que não souberam fazê-la "soltar" o que sentia e sabia.
A ela e somente a ela cabia a responsabilidade dos escassos aplausos e do pouco reconhecimento da crítica e platéia.

Conformara-se com qualquer enredo, sem sair em busca do texto, que lhe tocando a alma faria seu talento inteiro aparecer e os aplausos explodirem.
O teatro da vida...
Há que se ter pressa pois as temporadas se esgotam e passando-se pelo tempo já não existirá peça em que se possa atuar.

Ninguém dirige o teatro da vida, ninguém escolhe atores ou autores.
Descobriu que ela mesma é que escolhera com quem, o que e onde iria representar. Bastaria ter usado bem o seu talento e buscado o seu sucesso sem se importar se iria deixar abertos espaços nas peças que outros montaram para eles mesmos e a colocaram como coadjuvante.

Ao apagar das luzes da vida percebeu, afinal, que neste teatro há que se ser o ator principal, pois o resto é figuração!
***

Sonia Regina / 2000

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O FIO PARTIDO



Era tecelã de sua vida. Tecendo seu tapete pretendia contar a sua história e a de seus queridos. Fazia-o com capricho, com o cuidado de traçá-lo em fio único, sem emendas. O fio com que trabalhava não podia romper-se e, para isso, procurava ter gestos e atitudes leves para que nada interferisse em seu trabalho que deveria ser perfeito.

Procurava tecer quase todos os dias, alguns, demorando mais horas, outros, apenas alguns minutos, sempre com o longo novelo preso em suas mãos e com cuidado para que o fio não se rompesse. Tapetes valiosos são urdidos com fio único, esse é o grande valor de um bom tapete. Variava os motivos de sua arte; bordava flores, pássaros, crianças, adultos... tecia amor.

Assim o fez por muitos anos e naquele tapete ia relatando as fases de sua vida. Pessoas à sua volta admiravam-se com sua paciência e perseverança; sua tranquilidade, sua habilidade, seu saber. Insistiam para que desistisse, afinal aquela preocupação em manter o fio único,pensavam elas, era uma tortura. Não para ela...

Eles não sabiam que a intenção que tinha era deixar gravado no seu tapete tecido com fio sem emendas todos os momentos que passara com seus amados. Quando partisse para Deus, se não continuassem seu trabalho, ao menos teriam ali, por inteiro a história difícil, e por isso linda, que viveram juntos.

Porém, o tempo passa, as mãos ficam mais trêmulas, a paciência decresce e, um dia, ao tecer, distraiu-se e num gesto mais brusco puxou o fio com excesso de força e... ele se rompeu. Olhando aquele fio partido pensou que tudo havia se acabado, seu trabalho de tantos anos... Mas era teimosa e resolveu experimentar emendar o cordão. Até o conseguiu e pensou: - Quem sabe ninguém percebe e posso continuar a tecer.

Continuou, mas a medida que o trabalho se desenvolvia a marca do fio partido, a emenda, tornava-se mais visível. Era uma falha impossível de não ser vista. No entanto, prosseguiu assim mesmo, sempre com um peso no coração e com as mãos entorpecidas pela certeza do erro. Não interrompeu sua trama.

Agora as pessoas já não a olhavam com admiração, achavam graça da insistência dela. Para quê tecer um tapete defeituoso que não teria valor algum? Esqueciam-se do tempo em que o fizera com perfeição.... Alguns anos depois era chegada a hora de encontrar-se com Deus e nos últimos instantes nesta terra pediu aos que a rodeavam que a envolvessem em seu tapete, pois se não tinha valor queria levá-lo consigo, de nada valia deixá-lo com eles pois suas histórias haviam se rompido com aquele fio partido.

Para surpresa de todos ao esticarem o tapete para fazer o que pedira, o próprio peso do trabalho fez com que o defeito se acomodasse e não fosse mais percebido. Ela sabia que ele estava lá, mas seus queridos diziam que deixasse o enorme tapete com eles pois não viam nada que o desvalorizasse.

Não a convenceram, ela sabia do seu erro e seguiu para Deus envolvida no lindo tapete tecido em flores, pássaros, crianças e adultos. Lá, onde Deus habita pretendia oferecê-lo aos anjos que, por sua pureza, não fazem julgamentos, enxergam apenas a beleza das obras que realizamos....

"Errei ao tecer meu tapete, mas não no amor com que o teci."

Sonia Regina / maio de 2008

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

DANÇANDO NAS NUVENS


Mais de meio século se passara desde que nascera. Era feliz consigo e com o que conseguira realizar, mesmo com escolhas erradas. Gerara, parira, educara três filhos já crescidos e aparentemente felizes, felicidade é um estado muito particular de cada um. Sentia orgulho da formação com que conseguira lhes moldar, do trabalho realizado neles e por eles.

Gostava de livros, todos e quaisquer, mesmo que fosse para exclamar ao terminar de lê-los: -Detestei!!!
Amava escrever. A palavra escrita a fascinava, assim como o som delas. Elaborava listas de palavras "deliciosas"e "odiosas"; palavras-mulher"e "palavras-homem", só pelo prazer de desenhar as letras e, ao lê-las ouvir a sonoridade delas.

Era capaz de assistir a filmes seguidos pela madrugada afora. Quando algum a encantava, via-o repetidas vezes em busca dos detalhes e nuances que o formaram.
Havia as músicas, essas escolhidas com cuidado, apenas aquelas que lhe invadissem a alma, aquecessem o corpo e a fizessem levitar em pensamento e na prática, pois quando as ouvia, punha-se a dançar e flutuava... Isso quando estava só e como gostava de estar consigo mesma!

O marido, sempre ausente, mesmo que na sala ao lado, os filhos vivendo suas vidas, e ela...gostava mesmo de estar só. Seu tempo sozinha preenchia-o por inteiro, quando não era insuficiente.

Certo sábado ela, filho, nora, filha, genro e a filha caçula foram a um casamento.
Durante o ritual religioso manteve-se impassível com sua opinião crítica, ferina sobre aquela representação. Tudo lindo, perfumado, musical e mentiroso. Gostava de atos significativos e, ao seu ver, só ela entendia o significado real daquela cerimônia.

Refletia na futilidade da pompa, que em tempo algum fez alguém feliz, nos gastos inúteis, nos cumprimentos estéreis...
Seguiram para a recepção: linda, muito mais do que esperara.

Ainda é tempo que se diga, ela também estava se encantando consigo. Sentia-se bonita, bem vestida, bem maquiada, tudo em acordo com a sua idade. Gostava de si: do seu rosto, de seu corpo magro, de seu porte, de seu jeito. Admirava-se consigo mesma mais do que se admirara quando jovem. E olha que os que a conheceram diziam que era muito "linda, muito cheia de graça!

Gostava de ser como era e sabia que os filhos a admiravam também.
A festa desenrolava-se perfeita, a conversa corria alegre, até que a música foi solta pelo salão, enchendo-o com aquelas melodias que preenchiam as carências que seu coração precisou aceitar; inteira, recheou-se de sons.

Todos os que estavam à sua mesa levantaram-se para dançar, estavam aos pares e ela estava só, como sempre, o marido esquecido dele mesmo na sala de casa, frente à televisão.

Ali ficou ela, com as músicas que amava, o repertório perfeito que a fazia esquecer onde estava, que o tempo passara...
O ritmo batia dentro de seu coração, em sua alma e ah! como ela desejou dançar,flutuar como fazia sozinha em casa. Pela primeira vez sentiu um gosto de solidão, sentiu-se abandonada e com vontade de abandonar-se à música. Chegou a pensar em sair dançando: o pudor não o permitiu. Estava acostumada a estar só.

Começou a inquietar-se, a cantar baixinho os versos e as melodias, sabia-os todos, e viu-se como deviam vê-la: uma senhora que os filhos levaram à festa e que deveria comportar-se como tal.

Sentiu que ia chorar, de raiva, de pena por não aproveitar aquelas melodias tão lindas. Seu corpo, sua alma pediam para dançar, uma censura severa dentro dela a impedia.
A filha aproximou-se e convidou: - Vem mãe! Você dança "tão bonitinho"...

Ela não foi. Ela não dançava "bonitinho", ela flutuava, ela levitava!
Aproveitou a animação de todos para sair sem ser vista do salão e, pelas escadas, ia ensaiando seus passos flutuantes que realizava tão bem e a faziam tão feliz.

Desceu, solidão esquecida, apenas sozinha e dançou pela alameda do clube, calçada de paralelepípedos sob os olhos do segurança que ensaiou um sorriso, imaginando-a de pilequinho.

Em direção à rua tropeçou nos saltos dos sapatos de camurça, finos e altos, que não estava habituada a usar e se prenderam às pedras do calçamento. Tirou-os e, pés no chão, a música soando lá dentro penetrou inteira em seu corpo, cérebro, alma.

O segurança foi a única testemunha daquela "coroa loura, bonitona ainda" que atirando os sapatos para que ele os pegasse foi subindo em direção ao céu dançando, flutuando e sumiu entre as estrelas. Contou ele, ainda, que durante alguns segundos sua sombra apareceu contra a lua cheia para logo desaparecer atrás dela, sempre cantarolando e dançando... sozinha.

Quando os filhos a procuraram, além do relato, receberam do rapaz, em estado de perplexidade,o par de sapatos de camurça pretos, saltos altos e finos, só usados em ocasiões especiais...

...Quem não expõe seus talentos,dança nas nuvens...

Sonia Regina,1999

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!
Luar dando espetáculo na praia da Boa Viagem!"