QUEM SOU EU...


"Ninguém pode calar dentro em mim esta chama que não vai passar, é mais forte que eu e não quero dela me afastar....



Eu não posso explicar quando foi e nem quando ela veio, mas só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo em que creio..."(Maysa)



Com as outras dores fazem-se versos...com as que doem,grita-se! (Fernando Pessoa)













Quem "grita" como eu......

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!
Luar dando espetáculo na praia da Boa Viagem!"

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O FIO PARTIDO



Era tecelã de sua vida. Tecendo seu tapete pretendia contar a sua história e a de seus queridos. Fazia-o com capricho, com o cuidado de traçá-lo em fio único, sem emendas. O fio com que trabalhava não podia romper-se e, para isso, procurava ter gestos e atitudes leves para que nada interferisse em seu trabalho que deveria ser perfeito.

Procurava tecer quase todos os dias, alguns, demorando mais horas, outros, apenas alguns minutos, sempre com o longo novelo preso em suas mãos e com cuidado para que o fio não se rompesse. Tapetes valiosos são urdidos com fio único, esse é o grande valor de um bom tapete. Variava os motivos de sua arte; bordava flores, pássaros, crianças, adultos... tecia amor.

Assim o fez por muitos anos e naquele tapete ia relatando as fases de sua vida. Pessoas à sua volta admiravam-se com sua paciência e perseverança; sua tranquilidade, sua habilidade, seu saber. Insistiam para que desistisse, afinal aquela preocupação em manter o fio único,pensavam elas, era uma tortura. Não para ela...

Eles não sabiam que a intenção que tinha era deixar gravado no seu tapete tecido com fio sem emendas todos os momentos que passara com seus amados. Quando partisse para Deus, se não continuassem seu trabalho, ao menos teriam ali, por inteiro a história difícil, e por isso linda, que viveram juntos.

Porém, o tempo passa, as mãos ficam mais trêmulas, a paciência decresce e, um dia, ao tecer, distraiu-se e num gesto mais brusco puxou o fio com excesso de força e... ele se rompeu. Olhando aquele fio partido pensou que tudo havia se acabado, seu trabalho de tantos anos... Mas era teimosa e resolveu experimentar emendar o cordão. Até o conseguiu e pensou: - Quem sabe ninguém percebe e posso continuar a tecer.

Continuou, mas a medida que o trabalho se desenvolvia a marca do fio partido, a emenda, tornava-se mais visível. Era uma falha impossível de não ser vista. No entanto, prosseguiu assim mesmo, sempre com um peso no coração e com as mãos entorpecidas pela certeza do erro. Não interrompeu sua trama.

Agora as pessoas já não a olhavam com admiração, achavam graça da insistência dela. Para quê tecer um tapete defeituoso que não teria valor algum? Esqueciam-se do tempo em que o fizera com perfeição.... Alguns anos depois era chegada a hora de encontrar-se com Deus e nos últimos instantes nesta terra pediu aos que a rodeavam que a envolvessem em seu tapete, pois se não tinha valor queria levá-lo consigo, de nada valia deixá-lo com eles pois suas histórias haviam se rompido com aquele fio partido.

Para surpresa de todos ao esticarem o tapete para fazer o que pedira, o próprio peso do trabalho fez com que o defeito se acomodasse e não fosse mais percebido. Ela sabia que ele estava lá, mas seus queridos diziam que deixasse o enorme tapete com eles pois não viam nada que o desvalorizasse.

Não a convenceram, ela sabia do seu erro e seguiu para Deus envolvida no lindo tapete tecido em flores, pássaros, crianças e adultos. Lá, onde Deus habita pretendia oferecê-lo aos anjos que, por sua pureza, não fazem julgamentos, enxergam apenas a beleza das obras que realizamos....

"Errei ao tecer meu tapete, mas não no amor com que o teci."

Sonia Regina / maio de 2008