QUEM SOU EU...


"Ninguém pode calar dentro em mim esta chama que não vai passar, é mais forte que eu e não quero dela me afastar....



Eu não posso explicar quando foi e nem quando ela veio, mas só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo em que creio..."(Maysa)



Com as outras dores fazem-se versos...com as que doem,grita-se! (Fernando Pessoa)













Quem "grita" como eu......

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Gaveta de maluco


Resolvi mexer em uma de minhas gavetas,uma meio esquisista onde guardo objetos estranhos e que,sei,jamais farei uso.Entre os achados encontrei esta crônica que logo percebi porque estava guardada naquela gaveta específica.Repasso aos meus amigos porque apesar do título o autor é brilhante,a meu ver!

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Pertenço a essa estranha espécie existente entre os mortais que tem a mania de guardar inexplicáveis trecos nas gavetas. Admiro os cidadãos de mesa limpinha que têm coragem de jogar fora papéis, orações no verso de santinhos, vidros velhos de homeopatia, marcadores de livros com mensagens edificantes, benjamins para alguma utilidade, fio dental, radinhos de pilha velhos.

Eu não.

Acumulo-os por motivos misteriosos pois reconheço inexistir qualquer lógica ou coerência no ato. Há algo que dói ao jogar fora qualquer resultado do trabalho humano. E na dúvida, guardo. Fios velhos, pilha que não gastaram até o fim, clips enferrujados, um olho de boi contra a inveja e o mau olhado, um pente de osso reserva do principal que anda no bolso de trás, dois ou três comprimidos (com validade vencida...) para eventual acidez estomacal, uma régua velha rachada, os elásticos que recebi e não joguei fora, bloquinhos, uma prece milagrosa para Santo Antonio de Categeró que diz : “Oh Santo Antonio de Categeró, estendei Vossas mãos agora mesmo sobre mim, livrando-me dos desastres, da inveja e de todas as obras malignas”.

Lá podem ser encontrados, ademais: um caderninho com sugestões de remédios da flora que possivelmente nunca usarei mas me traz segurança tê-lo pois apresenta, entre tantas outras maravilhas curativas: a pomada cipó azougue, a pomada Calêndula, palavra que ademais é linda e fico a repetir, Calêndula, Calêndula, e aconselha ainda o afamado colírio de cinerária marítima que com um nome assim elegante deve possuir formidável poder de sarar. E um livrinho pequeno, de capa amarela, que há muitos anos recebi do trovista mineiro Waldemar Pequeno onde posso ler entre quarenta outras, esta graciosa trova:

"De todos os bens do mundo,
jamais se alcança o melhor.
Mas dos pesares da vida,
o nosso é sempre o pior."


Salve as minhas bugigangas! Mania de reter o que me parece latejar de boas intenções, espécie de “ter poético” ao qual raramente recorro mas do qual chego a sentir a pulsação de significados ocultos e meio mágicos. Coisa de doido, de poeta ou de velho mesmo.

Artur da Távola,postado por Sonia Regina,07/11/2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sala de aula



Gosto de te ver assim:
atenta,séria,igual,
pensando,somando,
escrevendo,apagando.

Gosto de ver teu esforço
e,eu sei,que és capaz,
sem medidas,
sem modelos,
de ser útil,progredir.

Gosto de te ver assim
entre outros
que alguns dizem
a ti não serem iguais.

Na medida do esforço
o teu vale mais e mais
pois é medido
em pedaços pequenos,
alguns tão miúdos
que a mim dão a impressão
de nascerem aquém de ti.


Sonia Regina,1992

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Prece


E que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio;que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca,porque metade de mim é o que eu grito,mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda ainda que tristeza;que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante,porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,apenas respeitadas como a única coisa que resta no homem inundado de sentimento,porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que falo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço;que essa tensão que me corrói por dentro seja,um dia,recompensada,porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é o que eu calo.

Que o medo da solidão se afaste;que o convívio comigo mesmo se torne,ao menos,suportável;que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que me lembro ter dado na infância,porque metade de mim é a lembrança do que fui e a outra metade...não sei.

Não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito e que o teu silêncio me fale cada vez mais,porque metade de mim é abrigo e a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer,porque metade de mim é a platéia e a outra metade é a canção.

Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade...também!

Oswaldo Montenegro,postado por Sonia Regina,05/10/2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Palavreando...


Vera vida
vida virá
viva vida
vida verá

Vara a vida
virando
varando
sangrando
pedindo
sentindo

Orgulhosamente
Altivamente
Corajosamente
Eternamente

Amém!


Sonia Regina,1992

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Próximo


Existe um mantra em que se repete:"Próximo,Próximo."A medida que você expande o seu receptor e seu desejo aumenta,existirão desafios e situações desconfortáveis.

Você se sentirá rejeitado e ofendido.

O que você pode fazer é aprender sua lição e seguir em frente.

Ficamos desnecessariamente preocupados com problemas do passado,relacionamentos que não deram certo e traumas de infância.Diga:"Próximo!"E vá em frente.

Quando uma borboleta sai de seu casulo,por acaso ela leva o casulo consigo?

Próximo.Hoje,aceite a rejeição.Por mais que você se sinta queimando,siga em frente.

Quebre as cascas que rodeiam sua alma.E lembre-se de deixá-las para trás depois que elas se quebrarem.

Próximo.Levante,sacuda a poeira e deixe o que passou para trás.


Shmuel Lemle,postado por Sonia Regina,03/10/2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Decisão


Vou encontrar meu caminho.
Vou me encontrar a mim mesma.
Vou encontrar meus queridos.
Vou encontrar meus desejos.

Vou ao encontro dos sonhos.
Vou ao encontro da vida.
Vou ao encontro marcado.
Vou ao encontro perdido.

Vou perdendo os medos todos.
Vou perdendo a mansidão.
Vou perdendo essa tristeza.
Vou perdendo a solidão.

Vou sozinha me encontrar.
Vou sozinha te achar.
Vou sozinha viajar.
Vou sozinha e vou te amar.

Vou amar quem me quer bem.
Vou amar a terra, o mato.
Vou amar o universo.
Vou amar o chão que piso.

Vou pisar firme e sem medo.
Vou pisar a terra fofa.
Vou pisar quem me ferir.
Vou pisar quem me iludir.

Saio livre pra voar
tal e qual um passarinho
que necessita do espaço
pra voar, se libertar.

Liberto-me agora e já,
me liberto da agonia
de ver os dias passando,
esquecendo que sofria...


Sonia Regina,21/04/1992

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Tributo à minha irmã




Hoje vou postar um singelo e triste relato de minha irmã mais nova Silvana Regina.

Ela era 13 anos mais nova que eu.Quando nasceu nosso pai já havia falecido,daí foi criada com todos os mimos que eram de se esperar ante a situação.

Criança bonita, levada e inteligente era o encanto de todos nós. No entanto, sempre foi de fazer o que lhe desse vontade e minha mãe, já com certa idade, de saúde abalada sentia dificuldades em manter sua autoridade, apesar de muito apegadas uma a outra. Quanto tinha 16 anos nossa mãe faleceu e a rotina de vida de minha irmã mudou.

Há dois dias atrás fui fazer uma faxina na estante onde coloco meus livros prediletos e encontrei um livreto do Centra-Rio/Ses, um centro terapêutico para reabilitação de pessoas com qualquer tipo de dependência química. Este folheto foi editado ao final do ano de 2003, como comemoração por mais um grupo de reabilitados.

Silvana Regina faleceu em agosto de 2007, aos 50 anos sem aviso e num sopro. Sua saúde ficara debilitada pelos problemas que teve e nesta noite ela apenas disse ao marido que não estava muito bem, mas que iria dormir e acordaria melhor. Nunca mais viu o dia.

Apesar dos problemas que apresentou sua casa era uma alegria constante. Mãe de três filhos, bem criados e responsáveis, visitá-la era rir muito, saborear quitutes deliciosos, cantar e dançar muito pagode. Sempre uma festa!!!! Em nós todos, irmãos, filhos e netos ficou uma lacuna que jamais será preenchida.

Silvana era especial, quem não a conheceu, não sabe o que perdeu!!!

Ela mesma vai contar sua história, relatada no folheto do Centra-Rio.

Esta postagem deve ser um sinal para todos, quer tenham filhos, netos ou não. Com ela desejo alertar para o fato de que qualquer substância que tome conta de nós, de nós leva tudo, até a vida.

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POÇO SEM FUNDO

Eu ouvia falar
que a droga é um poço sem fundo,
que deixa marcas profundas,
difíceis de se apagar.
Mas era tempo de brincadeira,
tempo de contestar...
na minha ingenuidade pensava:
quando quiser vou parar!
Eu era, então, adolescente.

O tempo foi passando
e eu continuava usando
sem ainda me importar.
Era tempo de ser bonita,
era tempo de dançar
pagodes, danceterias,
gente a me rodear.
Pela droga estava apaixonada!
Porque, então, parar?
Eu era, então, uma adulta jovem.

As coisas, então, mudaram:
não era mais eu quem usava as drogas
eram elas que me consumiam.
Minha vida tornou-se um inferno:
não tinha mais alegria,
sem elas eu era nada,
sentia-me inadequada,
não sabia nem falar.
Neste momento percebi que já era
impossível parar.
Eu era, então, uma adulta.

Após muito sofrimento e muita busca
cheguei ao Centra-Rio.
Aprendi que a dependência é doença
impossível de curar.
Sob esta nova ótica comecei a me
recuperar.
Na Oficina da Palavra
reaprendi a brincar,
voltei a rir novamente,
retomando a minha vida,
seguindo meu caminhar.
Mas as marcas estão comigo
impossíveis de apagar:
o que eu sofri nas drogas
são lembranças para sempre,
nunca irão me deixar.
Por isso exponho minha vida
e abro meu coração.
Para vocês, jovens queridas
que das drogas se enamoram
fujam delas enquanto há tempo
para escravas não se tornarem.
Porque, para vocês, eu repito
o que costumava escutar.
A droga é um poço sem fundo
que deixa marcas profundas
que nada pode apagar!
Eu sou,então, uma mulher madura
começando a envelhecer.

Silvana Regina, postado por Sonia Regina, 29/10/2008

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Afinal


Vim te buscar,vem comigo
que eu quero te levar.
Já não suporto a saudade...
muito tempo vi passar.

Estive longe,tão triste
sem sequer poder te ver.
Senti saudades de tudo
e em nada eu via prazer.

Hoje é o dia certo
de contigo me encontrar,
de poder te ver de perto,
de,afinal,te abraçar.

Por isso,espera por mim
que vou chegando cansado
da viagem,de tão longe,
que vou chegando apressado.

Vim te buscar,vim feliz,
feliz quero te encontrar.
Vem comigo!Esta é a hora
de enfim,na eternidade,
afinal,poder te amar.


Sonia Regina,27/01/1993

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Eu sei,mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.E porque não tem vista,logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora,logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz.E à medida que se acostuma esquece o sol,esquece o ar,esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado.A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.A comer sanduíche porque não dá para almoçar.A sair do trabalho porque já é noite.A cochilar no ônibus porque está cansado.A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e "ler sobre crimes.E aceitando os crimes não acredita nas forças policiais."

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro,e ouvir no telefone:hoje não posso ir.A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar tudo o que se deseja e o de que necessita.E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.E a ganhar menos do que precisa.E a fazer fila para pagar.E a pagar mais do que as coisas valem.E a saber que cada vez pagará mais.E a procurar mais trabalho,para ganhar mais dinheiro,para ter com que pagar nas filas em que se compra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.A abrir revistas e ver anúncios.A ligar a televisão e assistir a comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.A ser instigado,conduzido,desnorteado,lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.À luz artificial de ligeiro tremor.Ao choque que os olhos levam na luz natural.À contaminação da água do mar.Às bactérias da água potável.À lenta morte dos rios.Se acostuma a não ouvir passarinho,a não ter galo de madrugada,a ter a hidrofobia dos cães,a não colher fruta no pé,a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais,para não sofrer.Em doses pequenas,tentando não perceber,vai afastando uma dor aqui,um ressentimento ali,uma revolta acolá.Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.Se praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.E se no fim de semana não há muito o que fazer,a gente vai dormir cedo,e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado.A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas,sangramentos,para esquivar-se de faca e pistola,para poupar o peito.A gente se acostuma para poupar a vida,que,aos poucos se gasta,e que,gasta de tanto acostumar,se perde em si mesma.

Marina Colasanti,postado por Sonia Regina,27/10/2008

sábado, 25 de outubro de 2008

Conta e tempo


Deus pede estrita conta de meu tempo
e eu vou,do meu tempo,dar-lhe conta;
mas como dar,sem tempo,tanta conta,
eu que gastei,sem conta,tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
o tempo me foi dado e não fiz conta;
não quis,sobrando tempo,fazer conta,
hoje quero acertar conta e não há tempo.

Oh!vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis vosso tempo em passa-tempo,
cuidai,enquanto há tempo em vossa conta.

Pois aqueles que,sem conta,gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
chorarão,como eu,o não ter tempo!

Frei Antonio das Chagas(século XVII),postado por Sonia Regina,25/10/2008

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!

NITERÓI, LUGAR ENCANTADO!!!
Luar dando espetáculo na praia da Boa Viagem!"